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Mudei de Carreira. E Agora? Do Direito para TI, Sem Recomeçar do Zero
Histórias

Mudei de Carreira. E Agora? Do Direito para TI, Sem Recomeçar do Zero

🎙️ Maria Eduarda Lyra

Duda Lyra contou ao Calgary BR Tech como deixou seis anos de advocacia para trás e foi para TI, o que a mudança realmente custou e por que nada do que ela sabia foi desperdiçado.

Na noite de 19 de outubro, o Calgary BR Tech se reuniu no Platform Innovation Centre para “Mudei de Carreira. E agora?”, apresentada por Maria Eduarda “Duda” Lyra, Business Process Consultant em ServiceNow e uma das vozes mais presentes do nosso grupo de WhatsApp. Ela abriu admitindo que estava nervosa e prometendo algo leve e nada técnico. O objetivo era modesto: se a palestra ajudasse pelo menos uma pessoa na sala, ela já sairia feliz.

Antes de Tudo: Um Papelzinho

Todo mundo recebeu um papelzinho na entrada. Antes de a história começar, a Duda pediu que a sala tirasse 30 segundos para escrever algo que você faz muito bem e que não tem nada a ver com tecnologia, e guardasse no bolso. “A gente volta nesse papel no final.”

Uma Carreira Sólida, no Papel

A Duda se formou em Direito pela UFPE em 2015 e passou na OAB de primeira. Trabalhou seis anos em grandes escritórios de Recife e já estava na segunda pós-graduação. Por qualquer critério de fora, a carreira estava dando certo.

Era justamente isso que tornava difícil admitir que algo não estava certo. Como associada, ela não tinha hora extra, carteira assinada nem direito nenhum, e trabalhava com frequência em fins de semana e feriados. “É irônico”, disse ela, “os escritórios de advocacia são os primeiros a desrespeitar os seus direitos.” No ano em que ia completar 30, ela se fez a pergunta que estava em um dos slides: “É essa a vida que eu quero para os próximos anos?” Ela não via perspectiva de crescimento e não se sentia realizada. Mais tarde, nas perguntas, ela descreveu o sinal mais claro. Estava tendo crises de ansiedade, e o coração disparava só de ligar o computador, antes mesmo de ver o que tinha pela frente. “Se você está sentindo isso, não é normal.”

Quatro Meses para Virar a Página

O primeiro passo foi aprender a língua da tecnologia. Ela fez um curso de programação no CESAR, instituto de tecnologia bem conhecido em Recife, sem saber onde aquilo ia dar. Ela comentou sobre isso no close friends do Instagram, umas 15 amigas. Uma delas trabalhava na KPMG e contou que a empresa tinha um programa feito justamente para quem buscava a primeira oportunidade em TI. A Duda nem acreditou que empresas faziam isso. Se inscreveu mesmo assim.

O programa era gratuito. Depois da contratação, a pessoa continuava estudando antes de entrar num projeto de verdade, o que parecia bom demais para ser verdade. Felizmente era verdade, e foi rápido:

  • Julho de 2022: começo do curso
  • Agosto: curso concluído em cerca de um mês e meio
  • Setembro: entrevista com o RH e, uma semana depois, a técnica
  • Outubro: chegou a proposta
  • Novembro: primeiro dia trabalhando com tecnologia

Ela fez questão de deixar um alerta: essa não é uma linha do tempo para você se comparar. O caminho dela foi atípico, o mercado de 2022 era mais generoso que o de hoje, e quem passou pelo mesmo programa depois tem relatado retornos bem mais lentos. Cada pessoa tem o seu timing.

A Parte Que Ninguém Vê

Os slides trataram de três custos que raramente aparecem nas histórias de transição bem-sucedida.

  • O medo: “E se a primeira oportunidade nunca viesse?” Aprender não era a parte assustadora. Entrar era. Nos primeiros meses ela se sentia perdida entre data analytics, programação e cybersecurity, e o programa deu uma direção.
  • A solidão: a Duda não conta planos grandes até que deem certo. Só o marido, Emerson, e aquelas 15 amigas sabiam. Nem os pais sabiam, e o pai dela, também advogado, não fazia ideia de que ela ia deixar de ser colega de profissão dele.
  • O dinheiro: ela saiu de uma carreira de seis anos para uma vaga de entrada e passou a ganhar três vezes menos. Em troca, teve muito menos estresse e muito mais qualidade de vida. “Mudar de área tem custo, e é melhor planejar para ele do que ser pega de surpresa.”

Foi aí que entrou a rede de apoio. O Emerson segurou com ela a fase mais difícil, inclusive a financeira. Ela lembrou que, se não tivesse postado aquele story sobre estudar programação, talvez a oportunidade que a amiga mandou nunca tivesse chegado até ela. O conselho dela: você não precisa contar para todo mundo, mas precisa de alguém.

Onde Entrou o ServiceNow

O programa da KPMG deixava escolher uma trilha de tecnologia: ServiceNow, Salesforce ou Java. Na época ela queria ser Product Manager. O papel de Business Analyst na trilha de ServiceNow parecia o mais próximo disso, então ela escolheu essa, admitindo que não fazia a menor ideia do que era ServiceNow. Java, ela completou entre risadas, estava fora de cogitação: “com todo respeito.”

Ela começou como BA, com uma BA sênior treinando na função, e continua nesse papel até hoje. Nunca virou programadora e não quer virar. Hoje trabalha remoto como Business Process Consultant em ServiceNow para uma empresa dos Estados Unidos. Desenha processos de negócio, faz levantamento de requisitos e participa de muitas reuniões. Tem as certificações CSA, CIS-ITSM, CIS-DF, PSPO I e PSM I. Voltar para a advocacia? “De jeito nenhum."

"Eu Não Recomecei do Zero”

Esse foi o coração da palestra. A Duda muitas vezes sentiu que estava recomeçando do zero. Não estava. Três coisas vieram com ela do Direito:

  1. Dividir o complexo em partes. O advogado destrincha um caso complexo para entender o cenário e montar uma estratégia. A BA faz o mesmo com um fluxo de negócio enorme. Ela deu o exemplo de um fluxo de onboarding no trabalho tão grande que dá desespero olhar inteiro de uma vez.
  2. Escrita e documentação. Petições, pareceres e contratos exigem precisão, porque cada palavra tem consequência. Requisitos, user stories e documentação de processos precisam que o time inteiro entenda do mesmo jeito.
  3. Oratória. Antes ela argumentava, sustentava uma tese e convencia quem estava do outro lado da mesa, inclusive em sustentação oral no tribunal. Agora ela conduz workshops, alinha stakeholders que discordam entre si e contra-argumenta quando um cliente chega com uma ideia pronta do que a plataforma pode fazer.

Nas perguntas, ela trouxe um exemplo bem recente. Um cliente mandou um e-mail questionando entregas como se o time dela não tivesse feito o trabalho. O chefe pediu que ela respondesse de forma sucinta. Ela respondeu. Rebateu cada ponto com precisão, anexou prints mostrando exatamente quando cada item tinha sido enviado, e o chefe elogiou a resposta. “Isso foi tão advogada da minha parte”, contou. Quem redige uma peça junta as provas, anexa as evidências e argumenta. Ela fez a mesma coisa.

Passando Adiante: NowGirls

A Duda gostou tanto da transição que, em março de 2024, fundou com uma colega de trabalho a NowGirls. É uma comunidade de mulheres brasileiras que trabalham com ServiceNow ou querem trabalhar. A ideia é que a travessia seja menos solitária para as que vierem depois. Lá elas compartilham cursos, dicas e vagas, e alguns recrutadores participam do grupo exclusivo de WhatsApp, que é só para mulheres (“desculpa, garotos”). Qualquer pessoa pode seguir a NowGirls no LinkedIn, e havia um encontro aberto para todos e todas naquela mesma semana.

Em 2026, a comunidade ganhou reconhecimento dentro da própria ServiceNow Brasil. Duas pessoas da empresa se ofereceram para apoiar a iniciativa, possivelmente até com encontros presenciais. A NowGirls segue sendo uma comunidade independente, não afiliada à ServiceNow.

De Volta ao Papelzinho

A Duda fechou com três coisas que levaria consigo se estivesse começando uma transição de carreira hoje. Antes da lista, pediu que dois voluntários lessem os papeizinhos.

O Emerson foi o primeiro: cozinhar. A sala ajudou a ligar isso à tecnologia. Fazer um prato novo exige pesquisar em fontes confiáveis, como acontece quando você investiga um problema técnico. E a analogia clássica para aprender algoritmos é justamente a receita de bolo, então seguir uma receita já é o primeiro passo para escrever software. Outra pessoa tinha escrito planejar atividades. A Duda lembrou que planejamento e gestão do tempo são essenciais em qualquer função de TI, seja você dev, BA, PO ou PM.

As três dicas dela:

  1. Sua bagagem vem com você. O que você já sabe não se perde. Só muda de lugar.
  2. A primeira porta é a mais difícil. Procure programas feitos para quem está começando e aceite que talvez precise começar mais embaixo. Ela aceitou um salário bem menor, sabendo que estava dando dois passos para trás para dar um salto logo depois.
  3. Escolha bem quem vai com você. Uma rede de apoio pequena já faz toda a diferença. Se você está passando por uma transição, conte com esta comunidade.

As Perguntas: Para Onde Ir e Como Ajudar

As perguntas não pararam, e várias delas eram, no fundo, sobre como começar:

  • Como escolher uma direção? O empurrão da Duda para TI veio de uma amiga e ex-colega de escritório, também do Direito. Ela tinha feito a transição por um programa parecido na Accenture e parecia genuinamente feliz. Para duas ex-associadas de escritório, “ser CLT e ter vale-refeição era um sonho”. O conselho dela para quem não sabe para onde ir é procurar pessoas que fizeram uma transição, em qualquer direção. Tem gente no grupo de WhatsApp do CBRT que foi de TI para o Direito. Pergunte o que motivou a pessoa e como ela se sente hoje, e veja se você quer as mesmas coisas. E lembre que TI vai muito além de programação: “Eu sou terrível com números, e mesmo assim está dando certo.”
  • Teve a ver com a mudança de país? Não. Morar fora era o sonho do Emerson, e ela torcia para que ele desistisse dessa “ideia maluca”. Foi a transição de carreira que abriu essa porta. Ainda na KPMG, ela foi abordada por uma empresa da Inglaterra para a primeira entrevista da vida em inglês. Na saída, o Emerson disse: “Tá vendo? O mundo está aberto para você agora.”
  • Como um parceiro ajuda sem impor? Um participante perguntou como apoiar a transição de carreira da esposa sem empurrá-la para a área dele. O Emerson respondeu do outro lado da história. Deixou claro para a Duda que seguraria as coisas em casa e que ela estava livre para encontrar o que fizesse sentido, e pesquisou as opções junto com ela, sem escolher por ela. Outro participante completou que a coisa mais útil que a parceira dele fez foi apontar qualidades que ele não enxergava em si mesmo.

A conversa chegou à IA, como acontece muito hoje em dia. O Anderson compartilhou uma sensação que muita gente na sala reconheceu: em algum momento, todo mundo pode ter que olhar para o lado e perguntar o que sabe fazer, ou está disposto a aprender, para continuar tendo uma carreira. O Fernando trouxe um contraponto otimista a partir da própria transição de gestor para desenvolvedor. Ele diz que está mais feliz agora que coordena uma IA que escreve o código e a documentação, como um piloto que quase não voa no manual mas continua sendo o comandante. Um último comentário da plateia resumiu bem: se você começa algo e descobre que não gosta, aprendeu algo sobre si mesmo, então nunca é tempo desperdiçado.

Como Nossa Comunidade se Beneficia

Para fechar a noite, o Anderson trouxe a tradução de Could Have Been Me, uma música do filme Sing 2: “Eu quero viver dias melhores, nunca olhar para trás e dizer que poderia ter sido eu.” Com ela, ligou as três últimas palestras: o poder da comunidade, a síndrome do impostor e, agora, a transição de carreira. As três apontam na mesma direção. Conte para alguém o que você está tentando, não acredite na voz que diz que você não consegue, e não passe a vida se perguntando se poderia ter sido você.

É por isso que o Calgary BR Tech existe. Obrigado ao Platform Calgary pelo espaço, à NeoOmni por patrocinar como nossa parceira de tecnologia, e ao Social Grid como patrocinador de mídia. Um agradecimento especial ao Davi, da BClouder, consultoria de supply chain com mais de duas décadas de experiência em SAP, que entrou como patrocinador surpresa da noite. Ele lembrou que, com o avanço da IA, vai faltar gente que entende de negócio e sabe conversar com pessoas.

Nosso próximo encontro é em 16 de novembro, quando o Rafael Menezes apresenta “Como Escalamos do Brasil Para o Mundo”, e dezembro vai trazer algo um pouco diferente do nosso formato de sempre. O call for papers de 2027 está aberto. Como a noite mostrou, todo mundo é autoridade em alguma coisa, então, se você tem uma história para compartilhar, fale com a gente pelo cbrt.ca. Siga o Calgary BR Tech no Instagram @cbrt, no LinkedIn e no YouTube para ficar por dentro. A gravação do evento está aqui.

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